
Continuando nossa refl exão, dizemos que uma atitude de compromisso é fundamental para um comportamento ético. Mas, esta atitude tornar-se-á muito frágil e, por vezes, inócua, caso não se fundamente em competência para realizá-lo. Tratar de competência no âmbito do docente como profi ssional da educação lança a pensar nos campos de sua abrangência: a competência não será sufi ciente para transmitir informações e pesquisas. Há de se abrir um espectro maior para identifi carmos essas competências.
Na área do conhecimento, a competência do profi ssional da educação abrange o domínio dos conhecimentos básicos de determinada área, assim como a sua atualização, especialização e pesquisa. Parece-me importante chamar a atenção para a pesquisa como elemento fundamental da competência na área do conhecimento, porque estamos acostumados e culturalmente acordados de que a atualização e especialização são sufi cientes para a docência, e que a pesquisa será realizada pelo setor de pós-graduação (professores e alunos). Nem sempre temos a clareza de que são aspectos fundamentais da pesquisa a contribuição pessoal, a refl exão própria sobre autores e sobre as teorias provindas de nosso mundo intelectual, de nossas experiências e vivências pessoais e profi ssionais, de nossa capacidade de crítica. Esses aspectos precisam estar orientados para fazer um contraponto com os estudos que fazemos das obras mais atuais sobre nossa área de conhecimento. A transformação dessas nossas refl exões em documentos que permitam o seu intercâmbio com nossos pares, com nossos alunos, nos coloca num patamar diferenciado do professor repetidor dos autores clássicos, e apresenta nossa colaboração pessoal e intelectual sobre os assuntos que estamos estudando em nossas aulas. À competência na área do conhecimento, acrescente-se a competência na área pedagógica para a atividade do docente com profi ssionalismo educacional.
Tal competência abrange a abertura para valorizar o aspecto pedagógico na profi ssão docente, que envolve: compreender e colocar em prática um processo de aprendizagem, em substituição ao processo focado apenas no ensino; vivenciar com os alunos uma relação de parceria e co-responsabilidade no processo de aprendizagem; perceber a integração de sua disciplina com a organização curricular de seu curso e com as diretrizes curriculares vigentes; dominar e usar adequadamente os recursos da tecnologia educacional; experienciar novas propostas para o processo de avaliação, e fazer um planejamento de curso como instrumento de ação educativa. Ter competência na área da extensão significa criar oportunidades para que os alunos consigam relacionar o aprendido em aula com as situações reais da sociedade em que vivemos, discutindo suas aplicações, projetos que podem ser desenvolvidos; a colaboração da ciência para o encaminhamento de problemas reais da população; incentivar ações de alunos junto à sociedade nos aspectos específicos da área de estudos.
Escritórios modelos, atendimento profi ssional gratuito à população, mas com dimensão profi ssional e acadêmica, juizados especiais cíveis, programa de saúde familiar, atuação junto à população para desenvolvimento de cidadania (por exemplo, direitos do consumidor), colaboração em projetos habitacionais e urbanísticos, em atividades educacionais em ambientes específi cos, como carceragem, hospitais, meios de comunicação e movimentos sociais são alguns exemplos do que entendemos por extensão universitária. O conceito de competência que estamos desenvolvendo não estaria completo sem sua dimensão política: o docente é um cidadão, participante e envolvido com sua comunidade, seu povo, sua nação, com responsabilidades próprias, como profi ssional, de colaborar com o desenvolvimento da qualidade de vida da população, especialista em ajudar a resolver os problemas que emperram ou difi cultam a vida das cidades e de seus habitantes. Em aula, ao mesmo tempo em que o aluno exige uma coerência de postura do professor entre o que ensina e como age em suas atividades profi ssionais na sociedade, não se concebe mais uma posição científi ca que se apresente como neutra, por não assumir nenhuma ideologia, como se isso fosse possível.
Abrir o diálogo e a crítica sobre as diferentes dimensões e valores que envolvem decisões técnicas dos problemas profi ssionais estudados é característica do docente como profi ssional da educação. Ele não colabora apenas para a formação de um tecnólogo. Propõe-se a colaborar para a formação de um profi ssional-cidadão, que como tal, discute e encaminha os problemas de sua profi ssão levando em conta outras dimensões, como as antropológicas, éticas, econômicas, culturais e sociais, para além da dimensão técnica.
Marcos T. Masetto
Professor Titular da PUC-SP e da Universidade Presbiteriana Mackenzie
Professor Titular da PUC-SP e da Universidade Presbiteriana Mackenzie
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